1989/2019 - 30 anos resistindo
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Há exatamente 30 anos atrás, com meus ingênuos 18 anos, eu ingressava no Grupo Teatral Calderón De La Barca. Sob a chancela de minha saudosa avó, que alfabetizou-se sozinha, percorremos Criciúma, nos idos de 1988, atrás de um curso de teatro, e nada. Até que em 1989 descobrimos que havia um grupo amador que se reunia aos finais de semana no Teatro Municipal, e após falar com o diretor artístico do grupo ele disse que eu poderia ir lá fazer "um teste".
E então, na semana seguinte de completar 18 anos de idade lá fui eu, com minha timidez quase sepulcral, enfrentar "aquela gente de teatro", naquele teatro imenso, com aquele palco enorme e com aqueles olhares me observando. Em outra situação eu sairia correndo e voltaria para casa, mas o desejo de estar ali parecia estar dentro de mim a vida toda. Fiz o teste, fui aplaudido pelos quase colegas e recebi a "sentença" do diretor: "Bem vindo!"
Os quatro anos de Calderón, grupo amador que remonta a década de 1970, e que foi representativo numa cidade pequena que não recebia praticamente nada de teatro, me fizeram um jovem feliz e ainda mais sonhador. Por conta dessa pequena vivência no grupo fui convidado a dar aula na recém criada oficinas de arte da Casa da Cultura. Mas por que eu? Por que não outro integrante do grupo com mais tempo "de casa"? Acho que 30 anos depois devo ter uma possível resposta. Do grupo grande de mais de 12 membros em 1989 o único que ainda continua fazendo teatro, que sentiu que não poderia fazer outra coisa da vida, que adoeceria se não fizesse, até hoje, fui eu. Talvez de forma intuitiva, ou pelo brilho nos meus olhos adolescentes Aurélia Honorato, que coordenava a oficina, viu minha paixão pelo ofício e me deu essa oportunidade de ensinando ir entendendo o que eu fazia.
Dizem que em terra de cego quem tem olho é rei, mas prefiro romantizar e acreditar que tenha sido meu olhar pulsante pelo teatro.
Nesse meio do caminho, fui fazendo oficinas, indo a festivais da FECATE, tentando fazer teatro mesmo depois da extinção do Calderón, lendo, lendo, lendo sobre teatro, indo estudar no Rio de Janeiro, coordenando novas oficinas e grupos até que aceito convite do quase recém criado Grupo Cirquinho do Revirado. Juntos crescemos, amplificamos nossos conhecimentos, ganhamos prêmios, aprofundamos a rua como espaço, e junto com tudo isso veio cair no meu colo como descoberta o ofício do palhaço.
Hoje, 30 anos após ter iniciado, 14 anos de palhaçaria, 18 anos frequentando a rua como cena, tento ascender aquela chama que tive ao entrar naquele teatro e fazer aquele "teste". Ser artista nesse país, fora do eixo das grandes capitais é uma luta, um ato de resistência continuo, mas que tem valido a pena. Indo de norte a sul do país levando arte, conhecendo pessoas maravilhosas, trocando com outros fazedores de teatro, sendo aplaudido, tem me colocado à prova. Sim, sou artista de teatro, sou palhaço, sim é possível viver de teatro (com seus altos e baixos financeiros), sim não é brincadeira não, não eu não preciso estar na tv para achar que sou um artista de sucesso, sim, sim, sim.
Posso dizer com orgulho que tenho parte na história dessa cidade, que como a formiga trabalho quietinho mas sei berrar e me colocar. A idade faz isso, minha experiencia faz isso, e esse pedaço de história ninguém me tira.
Que eu possa ter mais 30 anos nessa brincadeira séria, que eu, como todos os atores desejam, morra em cena.
Obrigado!
